Estava caminhando pela praia, que agora não tinha turista algum, e nem muitos moradores. Eu só havia encontrado alguns loucos, que assim como eu, gostavam ou amavam os dias nublados.
A praia estava cinzenta, o mar estava silencioso e o céu encoberto de nuvens pesadas estava ladeado por gaivotas que geralmente cantavam desafinadamente feito loucas, mas nessa manhã, estavam mudas. Ai de quem resolvesse mudar aquele quadro. Não se mexe numa obra onde há perfeição, e não havia nada mais perfeito do que o puro silêncio. Silêncio.
Provavelmente, se você estivesse olhando fora da minha cabeça, você ouviria muitos zumbidos de motores de carros, gritos e risadas de pessoas descontraídas e um mar turbulento chocando contra pedras mal colocadas. Mas você está lendo o meu pensamento, e ele está desligado de todo esse tormento. Tormenta.
Continuei em minha caminha distraída, pensando no sol que estava escondido, na chuva que logo viria, no cinza que me cobria. Pensando no choro de quem me amava, na música que ninguém cantava, no perfume que flor alguma exalava. Pensava.
Encontrei-o como de praxe, naquele mesmo lugar aleatório, que mesmo sendo alheio à tudo, era o nosso ponto de encontro. Não marcávamos horário, não marcávamos dia. Somente estávamos, encontrávamos, amávamos.
- Esperei por você nessa madrugada. Ah, a minha cama ficou tão vazia e fria. – Acusei-o num tom que mais parecia lamentação do que uma genuína acusação. Eu queria brigar. Queria batê-lo, odiá-lo, xingá-lo. Queria chamá-lo de mil palavrões. Mas não podia.
Eu só podia amá-lo.
- Eu tentei ir, mas você viu a tempestade? Eu não chegaria vivo se eu arriscasse. – Falou com um sorriso terno nos lábios, provavelmente adivinhando qual era o rumo de meus pensamentos. O desgraçado do meu amado conseguia me entender. Ele entendia, ah, se fazia.
- Poderia ter me avisado. – Falei somente essas palavras e tratei de virar de costas, tentando esconder-lhe a minha saudade.
Alguns braços – apenas os dele – enlaçaram em minha cintura, e um hálito doce que misturava com o cheiro de um café recente, brincava em meu pescoço, torturando-me de maneira colossal.
- Perdoa-me se fiz com que você se atordoasse, minha Penélope. Meus pensamentos só puderam pousar em sua imagem. – Sussurrou contra o meu ouvido, fazendo com que meus pêlos se arrepiassem. Fazendo com que meu coração saltasse, e se contivesse.
- Perdôo. – Deixei que as palavras flutuassem pelo ar, ecoando o que eu sentia.
Eu tentei escapar. Olhei para o horizonte, tentei encontrar conforto no mar. Agora ele parecia muito mais aterrorizante; agora ele parecia muito mais agitado. O mar parecia comigo, e dessa vez, você está percebendo isso de modo genuíno, ao me ler. Tenho pena de meus leitores.
- Ah... Pequena... – Sussurrou mais uma vez logo após de mandar-me um suspiro daqueles que fazem as damas tremerem as pernas. As minhas estavam intactas – ou talvez sonhassem em estar.
Meus olhos já estavam sendo fitados por aqueles outros, que pareciam ser nada, mas que continham tudo; continham o mundo! O meu amor.
- Sabes que eu Te Am... – Tentou me dizer. Cortei-lhe com um dedo atrevido em seus lábios. Aquelas palavras não eram verdades, e eu não queria mais ouvir mentiras.
- Não diga nada que não tenha certeza. – Falei-lhe, tentando fugir daquelas garras benéficas. Eu queria levar meu coração embora. Sair correndo para nunca mais vê-lo. Sair correndo para nunca mais ser atingida por ele, por aquele perfume encantador.
- Mas eu te amo. – Disse, mesmo depois d’eu ter tentado cortá-lo mais uma vez. Sorri por dentro, sentindo um calorzinho com o nome de “esperança”. Ele se atrevera ao me desafiar. Ele disse, mesmo eu falando pra não contar mentiras. – Eu te amo, garota. Amo, mas ainda temo. Você deveria deixar que eu me acostumasse à sua correnteza, mas você foge! Eu quero saber nadar nesse mar... No seu mar. – Falou-me num tom de confidências, olhando-me nos olhos para que eu visse que não havia vestígio de mentira ali. Foi aí que eu entendi.
Tentei dizer-lhe que também o amava, e que sonhava com os seus braços em torno do meu corpo praticamente todas as noites. Tentei dizer-lhe que desejava por aquele momento e por muitos outros, e que corria para a praia, para tentar esquecer do que já não tinha cura. Aquele amor. Aquela dor. Tentei dizê-lo.
Meus lábios foram tomados por outros lábios, que de tão famintos, pareciam queimar-me a cada toque. Línguas, bocas, abraços. Tudo era bonito, ritmado. Tudo era paixão, eram laços. Tudo era eu e meu Thiago.
O mar cantava ao fundo, junto das gaivotas, e eu tentando fotografar com os meus sentidos aquele momento para que esse se eternizasse, tentei descrever aquele instante em outras duzentas mil palavras, que estão confinadas nessa cabeça que você lê quando bem entende. Eu ainda lembro daquela praia, e daquele aroma que essa exalava. Lembro do som extinto que um canto silencioso tocava. Lembro de uns braços fortes que me protegiam de meus próprios medos. Lembro de um sabor vindo de uma boca macia que acariciava a minha com desespero. O meu Thiago não deixa que eu esqueça.
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