Sabe que um dia desses, eu estava passando em frente aquela sorveteria onde nos conhecemos? Lembro como se fosse ontem. Você estava linda, tinha no rosto um sorriso tímido enquanto suas amigas cochichavam perto de ti. Você usava um vestido florido, leve. Era uma tarde bem quente de primavera. Você tinha em seu cabelo, uma trança, e o seu rosto... O rosto mais lindo que eu já pude ver. Lembro que no momento em que meus olhos encontraram com os teus olhos, eu mal conseguia respirar. Seus olhos eram de um azul-anil tão profundo, que eu me perdia dentro deles. Lembro que não consegui falar por uns segundos, ou minutos. O meu amigo, o Juca, aquele que você gostava de brincar, dizendo que era meu “marido”, teve que me chamar umas quatro ou cinco vezes, até que eu estivesse completamente acordado. Completamente, não é bem a palavra certa para se usar. Acho que nunca acordei completamente do sonho, que mostrava você como minha.
Lembrei daquele dia, aquele dia lá, que fomos ao cinema, e que eu te roubei um primeiro beijo. Você estava com um gosto de chocolate na boca, por conta do que comíamos durante o filme. Lembro que você riu, fazendo todos olharem com cara feia para nós, quando te ofereci pipoca com chocolate.
Lembrei daquele dia em que tínhamos ido ao parque Ibirapuera, e que quando voltávamos para casa, a pé, começou a chover. Começamos a correr o percurso, mas acabamos ficando muito molhados. Você corria feito louca, tropeçou algumas vezes, e eu ria. Te disse que não estava rindo de você, disse que estava rindo da cena. Mas na verdade, eu ria pela felicidade de sentir que você era minha. De sentir a leveza daquele momento em que não nos cobrávamos nada um do outro além da companhia.
Lembro daquele dia em que brigamos. Lembro como se fosse ontem, e até hoje, ao lembrar daquela briga, a raiva me deixa com a visão vermelha. Não tenho raiva de você. Tenho raiva da futilidade pela qual brigamos. Você gritou comigo, você disse que eu não precisava esperar por você. Você foi embora, e disse que não ia mais se preocupar.
Uma semana depois, e já estávamos juntos de novo.
Lembro daquele dia. Aquele dia que estávamos na praia. Esse é o dia que a lembrança permanece mais forte na minha mente. Esse é o dia que eu mais gostaria de apagar.
Foi nesse dia, que estávamos na areia da praia, rindo dos outros que passavam, rindo de nós mesmos, rindo da nossa felicidade. Até que você decidiu ir pra água, e eu disse que não queria. Eu queria permanecer seco. Hoje, eu me encharcaria até a alma para poder voltar no tempo, e entrar contigo naquele grande mar.
Você queria ir, e mesmo eu dizendo que não ia, você foi. Eu fiquei esperando por você ali, na arrebentação. Na verdade, eu não sabia nadar, na verdade eu não queria ir pro fundo. Você foi indo pra longe, foi indo pro fundo. E eu não te via mais. Dez minutos e você não tinha voltado ainda. Quinze minutos e nada. Vinte minutos, e eu já estava desesperado. Gritei pelo salva-vidas, e ele foi à sua procura. Como eu gostaria, como eu gostaria de ter ido aquelas aulas de natação que minha mãe tanto tentou me forçar a ir. Eu poderia ter ido, eu poderia ter tentando te achar. Isso diminuiria a minha culpa.
O salva-vidas te achou, mas você não estava mais lá. Ele te colocou na areia, e você estava azul. Você estava ensopada, seus olhos não abriam, seu corpo não se mexia por conta própria, você não respirava. Tentaram te trazer de volta à vida. E eu não pude ver mais nada. Não lembro bem do que aconteceu depois disso.
Lembro do dia seguinte. Você estava de preto, eu estava de preto, todos estávamos de preto. O mundo parecia estar sem cor, e eu te observava intacta, imóvel, fria. Não era bom te olhar, pois toda vez que te olhava, uma espessa camada de água cobria meus olhos. Mas eu queria te olhar, eu tinha que memorizar muito bem o seu rosto. Eu não posso esquecer do seu rosto.
Todos os dias eu relembro de todos os momentos que passamos juntos, na esperança de que eu possa fazer com que eles voltem. Todos os dias eu penso no seu riso, no seu choro, nos seus gritos, na sua voz doce. Lembro do jeito tímido que você me olhava toda vez que eu ia te beijar, lembro das musicas românticas que você cantava no meu ouvido. Lembro do seu abraço, do seu toque. De como a sua pele ficava linda à luz do abajur do meu quarto. Eu lembro de como você implicava com as minhas coisas e as minhas manias, lembro de como você me cutucava. Lembro de como você dizia que me amava. Eu deveria ter ido contigo naquela água, mas eu fui burro o bastante pra não ir. Eu sonho que nos encontremos num mar muito maior, logo depois que eu me for. Eu não vou adiantar a minha morte, eu vou passar o resto dos meus dias, pensando em você, para que quando eu te encontrar naquele outro mar pós-vida, eu não cometa os mesmos erros. Estará tudo memorizado na próxima vez em que nos encontrarmos.
Todos os dias, todos os dias eu virei aqui. Não só desse ano, ou do próximo, mas enquanto a minha vida durar. E eu nunca vou esquecer, nunca vou perder você da minha memória. Eu gostaria de que a terra agora me abraçasse como te abraça.
Todos os dias, todos os dias eu virei aqui. Não só desse ano, ou do próximo, mas enquanto a minha vida durar. E eu nunca vou esquecer, nunca vou perder você da minha memória. Eu gostaria de que a terra agora me abraçasse como te abraça.
Enquanto abraço essa pedra, que é a tua lápide, espero que você sinta o amor que está aqui. Espero que você ouça tudo o que lhe disse. Espero que você não se esqueça que eu lhe pertenço, estando você aqui para me cobrar, ou não.
Eu apenas nunca vou esquecer. Eu apenas espero que algum dia, você possa ser realmente minha mais uma vez.
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