quarta-feira, 27 de julho de 2011

Permanência

Aqueles outros vestígios que foram deixados, por um outro alguém foram levados.
Ela disse. Trouxe um buquê com rosas vermelhas e colocou-as num jarro da cozinha, para ela mesma. Sentou-se à mesa, e pôs-se a observar o que era seu, o que era concreto, o que era vivo.
Lembrou-se das palavras que foram jogadas fora, ao vento, e que nunca mais poderão ser encontradas ou vistas. Aquelas pequenas frases que entregaram quem as disse, queimaram tudo, até a alma - por um momento, ela imaginou ter visto as pétalas das rosas vermelhas n'um vermelho mais flamejante, n'um vermelho mais fogo, como as palavras que foram queimadas e queimaram também. Mas não. Tudo não se passava de imaginação.
Seus sentidos não pareciam mais ser seus, e ela, tentando lembrar-se do amor, da dor, do que quer que fosse não conseguia; buscava continuamente por algo que até mesmo ela sabia que não podia ser encontrado.
Tornou a observar as rosas, sem realmente vê-las. Tentou lembrar-se de como fazia, mas agora já não mais existia. Pegou, hesitante, a jarra com as flores e praguejando baixo alguns palavrões que surgiram de repente, tentou conter o sangue que saía do rompimento da pele de seu dedo, que foi ferido por um espinho.
Tirou a tampa da lixeira e jogou todas aquelas rosas fora. Deixou umas lágrimas escaparem e também deixou que umas poucas gotas de seu sangue pingassem. Pegou a jarra e colocou-a sobre a mesa mais uma vez, mas desta vez vazia.

"E lá se vai mais uma tentativa; lá se vai mais um buquê de rosas ao lixo. Lá se vai mais lágrimas e sangue sendo derramados, e mais uma vez eu aqui, ao léu, sem princípio, nem pista. Lá se vai minha esperança de ter de volta alguma memória. Cá está o meu jarro vazio, sem conteúdo e sem personalidade, assim como a dona que já não tem vida. Ambos vazios, sem alma; ambos sem memórias, sem calma."

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