quarta-feira, 27 de julho de 2011

Uma Dose

“Uma dose de frustração, por favor.” Parecia ser o que o garçom me ouvira pedir. Eu pedi amor, e creio que eu tenha falado grego, pois ele não pareceu me entender, e me trouxe uma pequena dose frustrada de decepção.
Engoli aquilo contra-gosto e não reclamei por um segundo, ou minuto sequer. Deixei que as lágrimas saíssem, e logo as limpei – tudo culpa do gosto ruim. Engoli meu choro, engoli o sabor dos dissabores e bebi aquilo que nem de longe eu teria pedido. Aguardei, e minha esperança era de que ele me trouxesse uma dose de algo melhor para aliviar aquele amargo que agora caracterizava toda a minha boca.
O tal garçom trouxe mais um copo, e eu, na minha ingenuidade, deixei que meus olhos brilhassem e que minha boca se escancarasse num sorriso inesperado, imaginando que seria a minha tão desejada dose de felicidade. Bebi sem nem pestanejar, e era bem pior do que a primeira dose que eu havia tomado. Aquilo era uma dose de amargura com ódio, e me queimava inteira, me dando uma sensação de que o inferno estava em mim.
Meu choro aumentava, minha frustração crescia, e minha confusão permanecia a mesma perante o garçom zombador de mim. Quem era aquele sujeito que me submetia à tantos e tantos contragostos? O que é que ele queria de mim, quando eu apenas pedia uma dose mínima de felicidade e amor? Minha impaciência se tornou infinitamente eterna, e o garçom sumira, me deixando sozinha na mesa a sua espera. Criei coragem, me levantei e fui até o balcão. Lá, encontrei garrafas e garrafas do meu néctar dos deuses: Aquilo que eu havia esperado por tanto tempo. Puxei as garrafas contra o meu corpo, e as guardei juntas ao meu peito, para que nunca se afastassem de mim, e que nunca me faltasse nenhuma dose de nenhum daqueles líquidos.
Imediatamente, me servi de felicidade, amor, paz e tranqüilidade, e depois daquele dia, eu nunca mais procurei garçom algum, e se dos meus olhos avistassem alguma lágrima, com certeza não seria pelo gosto ruim, pois de ruim, minhas garrafas não continham nada.

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