quarta-feira, 27 de julho de 2011

Eterno, talvez

Sabe que um dia desses, eu estava passando em frente aquela sorveteria onde nos conhecemos? Lembro como se fosse ontem. Você estava linda, tinha no rosto um sorriso tímido enquanto suas amigas cochichavam perto de ti. Você usava um vestido florido, leve. Era uma tarde bem quente de primavera. Você tinha em seu cabelo, uma trança, e o seu rosto... O rosto mais lindo que eu já pude ver. Lembro que no momento em que meus olhos encontraram com os teus olhos, eu mal conseguia respirar. Seus olhos eram de um azul-anil tão profundo, que eu me perdia dentro deles. Lembro que não consegui falar por uns segundos, ou minutos. O meu amigo, o Juca, aquele que você gostava de brincar, dizendo que era meu “marido”, teve que me chamar umas quatro ou cinco vezes, até que eu estivesse completamente acordado. Completamente, não é bem a palavra certa para se usar. Acho que nunca acordei completamente do sonho, que mostrava você como minha.
Lembrei daquele dia, aquele dia lá, que fomos ao cinema, e que eu te roubei um primeiro beijo. Você estava com um gosto de chocolate na boca, por conta do que comíamos durante o filme. Lembro que você riu, fazendo todos olharem com cara feia para nós, quando te ofereci pipoca com chocolate.
Lembrei daquele dia em que tínhamos ido ao parque Ibirapuera, e que quando voltávamos para casa, a pé, começou a chover. Começamos a correr o percurso, mas acabamos ficando muito molhados. Você corria feito louca, tropeçou algumas vezes, e eu ria. Te disse que não estava rindo de você, disse que estava rindo da cena. Mas na verdade, eu ria pela felicidade de sentir que você era minha. De sentir a leveza daquele momento em que não nos cobrávamos nada um do outro além da companhia.
Lembro daquele dia em que brigamos. Lembro como se fosse ontem, e até hoje, ao lembrar daquela briga, a raiva me deixa com a visão vermelha. Não tenho raiva de você. Tenho raiva da futilidade pela qual brigamos. Você gritou comigo, você disse que eu não precisava esperar por você. Você foi embora, e disse que não ia mais se preocupar.
Uma semana depois, e já estávamos juntos de novo.
Lembro daquele dia. Aquele dia que estávamos na praia. Esse é o dia que a lembrança permanece mais forte na minha mente. Esse é o dia que eu mais gostaria de apagar.
Foi nesse dia, que estávamos na areia da praia, rindo dos outros que passavam, rindo de nós mesmos, rindo da nossa felicidade. Até que você decidiu ir pra água, e eu disse que não queria. Eu queria permanecer seco. Hoje, eu me encharcaria até a alma para poder voltar no tempo, e entrar contigo naquele grande mar.
Você queria ir, e mesmo eu dizendo que não ia, você foi. Eu fiquei esperando por você ali, na arrebentação. Na verdade, eu não sabia nadar, na verdade eu não queria ir pro fundo. Você foi indo pra longe, foi indo pro fundo. E eu não te via mais. Dez minutos e você não tinha voltado ainda. Quinze minutos e nada. Vinte minutos, e eu já estava desesperado. Gritei pelo salva-vidas, e ele foi à sua procura. Como eu gostaria, como eu gostaria de ter ido aquelas aulas de natação que minha mãe tanto tentou me forçar a ir. Eu poderia ter ido, eu poderia ter tentando te achar. Isso diminuiria a minha culpa.
O salva-vidas te achou, mas você não estava mais lá. Ele te colocou na areia, e você estava azul. Você estava ensopada, seus olhos não abriam, seu corpo não se mexia por conta própria, você não respirava. Tentaram te trazer de volta à vida. E eu não pude ver mais nada. Não lembro bem do que aconteceu depois disso.
Lembro do dia seguinte. Você estava de preto, eu estava de preto, todos estávamos de preto. O mundo parecia estar sem cor, e eu te observava intacta, imóvel, fria. Não era bom te olhar, pois toda vez que te olhava, uma espessa camada de água cobria meus olhos. Mas eu queria te olhar, eu tinha que memorizar muito bem o seu rosto. Eu não posso esquecer do seu rosto.
Todos os dias eu relembro de todos os momentos que passamos juntos, na esperança de que eu possa fazer com que eles voltem. Todos os dias eu penso no seu riso, no seu choro, nos seus gritos, na sua voz doce. Lembro do jeito tímido que você me olhava toda vez que eu ia te beijar, lembro das musicas românticas que você cantava no meu ouvido. Lembro do seu abraço, do seu toque. De como a sua pele ficava linda à luz do abajur do meu quarto. Eu lembro de como você implicava com as minhas coisas e as minhas manias, lembro de como você me cutucava. Lembro de como você dizia que me amava. Eu deveria ter ido contigo naquela água, mas eu fui burro o bastante pra não ir. Eu sonho que nos encontremos num mar muito maior, logo depois que eu me for. Eu não vou adiantar a minha morte, eu vou passar o resto dos meus dias, pensando em você, para que quando eu te encontrar naquele outro mar pós-vida, eu não cometa os mesmos erros. Estará tudo memorizado na próxima vez em que nos encontrarmos.
Todos os dias, todos os dias eu virei aqui. Não só desse ano, ou do próximo, mas enquanto a minha vida durar. E eu nunca vou esquecer, nunca vou perder você da minha memória. Eu gostaria de que a terra agora me abraçasse como te abraça.
Enquanto abraço essa pedra, que é a tua lápide, espero que você sinta o amor que está aqui. Espero que você ouça tudo o que lhe disse. Espero que você não se esqueça que eu lhe pertenço, estando você aqui para me cobrar, ou não.
Eu apenas nunca vou esquecer. Eu apenas espero que algum dia, você possa ser realmente minha mais uma vez.

Desejo

Eu olhei naqueles olhos, no fundo daqueles estranhos olhos. Minha busca foi árdua e inútil, já que você não encontrava-se lá de maneira alguma. Eu respirei fundo e senti aquele doce perfume, aquele perfume que intoxicou meu sistema. Foi uma pena porque não era o seu cheiro. Ouvi aquela voz, e me senti alegre até o momento em que pude perceber que não ouvia de maneira alguma o teu timbre. Pude sentir o teu toque ora gentil ora brutal contra a minha pele, e quase entrei em êxtase antes de perceber que não eram as tuas mãos contra o meu corpo. Me senti cada vez mais vazia em cada frustração que meu corpo e minha alma sofreram. Tua presença é a tua falta e eu já não sei conciliar estas duas coisas que ferem meu desejo.
Sinto as paredes do meu lar se fecharem contra mim ao mesmo tempo em que sinto aumentar este abismo que me pertence. Não vejo mais a esperança e tampouco me resta alguma fé. O que antes era um dourado cintilante cobrindo minha visão, agora se tornou um cinza agourento que gruda em meu cérebro e em meu peito. Minhas pernas travaram e nem dobrar os joelhos para fazer uma oração desesperada está sendo possível. Tudo que eu gostaria de ter era suas mãos nas minhas, teus olhos nos meus, teu perfume contrastando com meu cheiro e sua voz sussurrando seus desejos em meus ouvidos, mergulhando em meu âmago. Gostaria de que a esperança reinasse em mim e que pelo menos em uma vez, meus desejos não ficassem apenas na imaginação. Uma vez, uma única vez eu queria ter a minha fome de vida saciada.

Uma Dose

“Uma dose de frustração, por favor.” Parecia ser o que o garçom me ouvira pedir. Eu pedi amor, e creio que eu tenha falado grego, pois ele não pareceu me entender, e me trouxe uma pequena dose frustrada de decepção.
Engoli aquilo contra-gosto e não reclamei por um segundo, ou minuto sequer. Deixei que as lágrimas saíssem, e logo as limpei – tudo culpa do gosto ruim. Engoli meu choro, engoli o sabor dos dissabores e bebi aquilo que nem de longe eu teria pedido. Aguardei, e minha esperança era de que ele me trouxesse uma dose de algo melhor para aliviar aquele amargo que agora caracterizava toda a minha boca.
O tal garçom trouxe mais um copo, e eu, na minha ingenuidade, deixei que meus olhos brilhassem e que minha boca se escancarasse num sorriso inesperado, imaginando que seria a minha tão desejada dose de felicidade. Bebi sem nem pestanejar, e era bem pior do que a primeira dose que eu havia tomado. Aquilo era uma dose de amargura com ódio, e me queimava inteira, me dando uma sensação de que o inferno estava em mim.
Meu choro aumentava, minha frustração crescia, e minha confusão permanecia a mesma perante o garçom zombador de mim. Quem era aquele sujeito que me submetia à tantos e tantos contragostos? O que é que ele queria de mim, quando eu apenas pedia uma dose mínima de felicidade e amor? Minha impaciência se tornou infinitamente eterna, e o garçom sumira, me deixando sozinha na mesa a sua espera. Criei coragem, me levantei e fui até o balcão. Lá, encontrei garrafas e garrafas do meu néctar dos deuses: Aquilo que eu havia esperado por tanto tempo. Puxei as garrafas contra o meu corpo, e as guardei juntas ao meu peito, para que nunca se afastassem de mim, e que nunca me faltasse nenhuma dose de nenhum daqueles líquidos.
Imediatamente, me servi de felicidade, amor, paz e tranqüilidade, e depois daquele dia, eu nunca mais procurei garçom algum, e se dos meus olhos avistassem alguma lágrima, com certeza não seria pelo gosto ruim, pois de ruim, minhas garrafas não continham nada.

Falta de sono ou Falta de você

Mais uma noite insone de pura tortura.
Eu poderia ler um livro, eu poderia escrever versos e pensamentos que se remetessem à suas inexistentes lembranças; eu poderia assistir a um filme, eu poderia ligar para alguém apenas para não me sentir sozinha e anuviada pelo seu rosto em meus pensamentos repetitivos. A verdade é que eu poderia fazer mil e uma coisas durante esse período onde o sono parece ser extinto, mas eu não quero fazer nada que possa me fazer esquecer de você por um minuto sequer. Pode ser que eu seja masoquista, pode ser que eu esteja me auto-torturando, mas a única coisa da qual eu não quero me esquecer nem por um milésimo de segundo, é de você e de tudo que te constitui como pessoa.
4h da madrugada, e meus pensamentos martelam caoticamente dentro da minha cabeça, fazendo as paredes do meu cérebro tremer de dor. Eu resisto à vontade de dormir, pois sei que logo que deitar, a dor aumentará de forma não-razoável, e eu não terei você comigo para ajudar a acalmar essa tempestade que é tamanha. Minhas reflexões são todas relacionadas ao que poderia ser se você estivesse comigo, e ao deitar na cama, minhas reflexões se solidificam juntamente as lágrimas imprudentes que ensopam o meu travesseiro. Deixo que as lágrimas escorram, na esperança de que ao se libertarem, eu ficarei livre de algum peso por dentro, mas o engano é tremendo.
Se você estivesse comigo, eu estaria te abraçando com a cabeça encostada em seu peito, enquanto as lágrimas que agora correm pelo meu rosto estariam todas guardadas, pois não haveria motivos quaisquer para choro; eu estaria sentindo teu perfume, e você estaria acariciando meus cabelos daquela maneira que eu sei que você faz. Estaríamos conversando, e mesmo que existisse a ausência de palavras, o silêncio seria o nosso conforto, pois saberíamos que tínhamos um ao outro para o que quer que acontecesse. Se você estivesse comigo, meus "Eu te amo" seriam freqüentes, mesmo que não fossem verbalizados, pois meu amor por você ultrapassaria todas as barreiras verbais. Se você estivesse comigo, nada mais me faltaria, e eu estaria finalmente me sentindo a pessoa mais completa do mundo.
Acordo de meus devaneios, e o sono não chega, por mais que eu clame por ele. Eu abraço os cobertores como se fosse você que estivesse comigo, respiro profundamente como se eu estivesse sentindo o teu perfume ali - mesmo que só se sinta o cheiro da água salgada dos meus lençóis ensopados de lágrimas -, tento dormir para que quando eu durma, consiga sonhar com você. Mas não consigo, e meus pensamentos seguem com seu curso torturante, enquanto eu me perco entre o bom e o ruim; lembrar de você é a coisa mais maravilhosa da minha vida, no entanto a sua lembrança faz com que sua ausência seja mais aparente, e a sua ausência dói. O espaço ao meu lado na cama, chama pelo teu nome, chama pelo teu corpo.
O dia raia, o sol se põe e eu continuo deitada ali, daquele mesmo jeito, sem me mexer um centímetro, sem ter dormido uma hora sequer. A minha esperança era de que assim que o dia nascesse, eu me libertasse da dor, e então que você repentinamente e magicamente aparecesse ali, ao meu lado, dizendo que me ama com o olhar. Para a minha surpresa que não era tanta, você não se materializou ali, e eu continuei na frustração de não ter você, de não ter dormido, de não ter sonhado, e de ter ficado acordada o tempo todo frente a frente com a realidade. A única coisa que eu poderia e deveria fazer agora, seria me habituar à essas noites mal-dormidas (ou não-dormidas) que me atingiam com freqüência, assim como a sua ausência. Não tenho o conhecimento do porquê de ser exatamente assim, dessa maneira extremamente confusa, mas por alguma razão muito desconhecida, a vida parece zombar de mim com maestria. E eu continuo aqui... continuo aqui.

Bala Assassina

Enquanto na cama me deito, eu fico recordando os momentos passados, e quando eu me disponho a revirar as memórias da mesma maneira em que remexo nas gavetas e armários, eu percebo que não encontro sua essência de maneira algumas nas coisas deixadas. De todas as maneiras possíveis tento encontrar a sua alma em algum objeto deixado para trás, no entanto eu apenas encontro restos miseráveis, que foi apenas o que sobrou de quando você partiu.
Querido, eu soube da bala assassina que te atingiu no peito, perfurando-lhe a carne e tirando a vida de seu corpo sem dó. Creio que estejas lendo esse pedaço de papel ou de pensamento, e creio que de alguma maneira você deve escutar os meus murmúrios e lamentos. Lágrima alguma escorre de meus olhos, mas as que mais escorrem são as de dentro. Lágrimas internas são as que mais machucam, pois escorrem como sangue e pus de uma ferida aberta e inflamada.
Algum dia poderemos terminar de cumprir nossas promessas inacabadas que ficaram para depois, e um dia eu creio que encontraremo-nos no paraíso perfeito, onde não haverá guerra e balas assassinas. Não haverá ausência e não haverá saudade.
Eu sei que essa dor um dia irá passar, assim como o tempo passou. Só não tenho certeza sobre a saudade, pois a saudade permanece muito mais do que o tempo, que corre. Entre minhas incertezas, a única certeza que me resta é a de que essa separação foi a mais dolorosa dentre todas as outras que eu já pude presenciar, mas eu sei de que o reencontro acabará com todas essas pontadas no coração.
Ver-lhe-ei algum dia desses, ou algum dia muito distante. O tempo não terá o poder de apagar essa minha memória, não terá o poder de fazer com que eu acabe por esquecer de meus sentimentos que foram obrigados a serem abandonados. Força alguma me fará deixar de tentar recordar os pensamentos que se remetem a você, porque por mais que machuque, a dor faz com que eu tenha a certeza de que você existiu. Só estarei pronta para me livrar dessa dor quando for a sua mão a massagear meus pensamentos, enquanto tudo estará bem mais uma vez.

Pobres Olhos Negros

Fantasmas perseguiam-lhe e a garotinha de cabelos louros e olhos negros corria, tentando encontrar os comandos para os seus músculos, que há muito tempo estavam paralisados. Seu coração relutava em bater, e todas as suas forças lutavam por motivos contrários do que a situação pedia: Ela queria desistir.
De maneira desesperada ela adentrava a floresta, tomando cuidado para que árvores e arbustos não fossem atingidos por sua passagem acelerada, e ela cantarolava aquela canção que lhe fora ensinada. Ela desejava que com aquela canção sobre amores e flores, os fantasmas se afastassem em respeito à alegria da letra, mas a letra não condizia com o estado de espírito da garotinha.
Depois de ter sido libertada pelos fantasmas, ela se sentiu extremamente alegre por ter sido retirada daquele labirinto congelado, mas logo que viu os donos de sua liberdade, desejou não ter sido solta. A garotinha corria da mesma maneira em que correu por aquele labirinto durante anos e anos a fio - ou seriam dias? -, tentando encontrar sua mente, para que essa a obedecesse também.
A perseguição foi descontrolada e amargurada, já que os flutuadores não deixavam de proclamar maldições infinitas. A garotinha não conseguia encontrar a saída daquela floresta, e a cada volta que dava, sentia-se mais perdida que antes.
Caiu em desgraça num buraco profundo, e os fantasmas agarraram-lhe a carne e os ossos. Os animais que estavam por perto viram pequenos pedaços de músculos e ossos, e ouviram também o som de um coração sendo devorado por dentes silenciosos. A garotinha vivia presa dentre mandíbulas fantasmagóricas daqueles que a levaram para o lado sombrio, e a garotinha que já não era tão garota assim, temia que a morte nunca lhe chegasse. Mesmo com seu corpo destruído, sua mente trabalhava sem que nada de bom lhe fosse acrescentado.
"Maldito foi o dia em que achei que podia ser livre", pensou a garotinha. Pobre garota de cabelos louros e olhos negros que agora existia em desistência. Pobre garotinha.

Sangre

Sangre meus ouvidos, sangre meus olhos, sangre minha boca.
Das cenas mais mórbidas e repetitivas meus olhos já se cansam e pedem clemência. Querem desistir dessa vida, querem uma nova partida.
Das músicas e das vozes meus ouvidos já se cansam também. As palavras ácidas já não são divertimento, e tampouco aquelas brigas. Os ouvidos querem uma saída.
Das palavras contidas minha boca se cansa. Os dizeres contidos e exprimidos na garganta gritam lá dentro pedindo passagem para os lábios, que fechados mantêm-se a todo custo. Os lábios querem liberdade, querem permissão para revelar aqueles segredos mais cinzentos.
Quero que sangre, quero que exploda, quero que tudo se renove. Quero uma água ardente para estes olhos, para que perante a cegueira consigam ver de uma perspectiva diferente e dita impossível. Quero que a mesma água ardente adentre meus ouvidos e os tape; os tape para que apenas os gritos reprimidos dos pensamentos seja a trilha sonora da cabeça. Quero que com a água ardente os lábios se descolem, e assim decolem todas as juras que não foram juradas; todas as promessas que não foram proclamadas e todas as decepções que estão ocultadas.
Quero que todos os sapos engolidos se transformem em borboletas em meu estômago, e que a razão para isso seja um amor. Quero apenas que sangre e que a ferida se feche. Quero que a cicatriz fique, mas que a dor se vá. Sangre.

Permanência

Aqueles outros vestígios que foram deixados, por um outro alguém foram levados.
Ela disse. Trouxe um buquê com rosas vermelhas e colocou-as num jarro da cozinha, para ela mesma. Sentou-se à mesa, e pôs-se a observar o que era seu, o que era concreto, o que era vivo.
Lembrou-se das palavras que foram jogadas fora, ao vento, e que nunca mais poderão ser encontradas ou vistas. Aquelas pequenas frases que entregaram quem as disse, queimaram tudo, até a alma - por um momento, ela imaginou ter visto as pétalas das rosas vermelhas n'um vermelho mais flamejante, n'um vermelho mais fogo, como as palavras que foram queimadas e queimaram também. Mas não. Tudo não se passava de imaginação.
Seus sentidos não pareciam mais ser seus, e ela, tentando lembrar-se do amor, da dor, do que quer que fosse não conseguia; buscava continuamente por algo que até mesmo ela sabia que não podia ser encontrado.
Tornou a observar as rosas, sem realmente vê-las. Tentou lembrar-se de como fazia, mas agora já não mais existia. Pegou, hesitante, a jarra com as flores e praguejando baixo alguns palavrões que surgiram de repente, tentou conter o sangue que saía do rompimento da pele de seu dedo, que foi ferido por um espinho.
Tirou a tampa da lixeira e jogou todas aquelas rosas fora. Deixou umas lágrimas escaparem e também deixou que umas poucas gotas de seu sangue pingassem. Pegou a jarra e colocou-a sobre a mesa mais uma vez, mas desta vez vazia.

"E lá se vai mais uma tentativa; lá se vai mais um buquê de rosas ao lixo. Lá se vai mais lágrimas e sangue sendo derramados, e mais uma vez eu aqui, ao léu, sem princípio, nem pista. Lá se vai minha esperança de ter de volta alguma memória. Cá está o meu jarro vazio, sem conteúdo e sem personalidade, assim como a dona que já não tem vida. Ambos vazios, sem alma; ambos sem memórias, sem calma."

Não

Durante aquele momento que parecia interminável, a garota olhava-se no espelho e o que enxergava nele era o reflexo de uma expressão desamparada. Seus olhos agora secos de lágrimas conservavam uma cor avermelhada e não estavam pouco inchados; ela tivera uma noite daquelas em sua cama.
Chorara sozinha debaixo dos cobertores e os soluços eram abafados pelos travesseiros que colocara por cima de sua cabeça. As lágrimas grossas e pesadas permaneciam rolando pela sua face, mesmo que ela tentasse se conter. Mesmo agora, que se olhava claramente e via o que estava de errado, ela mal conseguia evitar por muito tempo que sua alma continuasse organizada.
As mãos sobre o peito ficavam durante uma boa parte do tempo, pois ela tentava evitar que as partes de seu coração já despedaçado, fugissem. Ela não queria perder a sua essência ácida, afinal. "É apenas uma fase, isso vai passar", dizia para si mesma, numa fraca tentativa de convencer-se. Mas ela sabia que não iria passar. E não passou.

Mais um mimimi

Eu lembro exatamente do dia em que resolvi admitir para mim mesma que gostava de você. Lembro que as semanas que se passaram, não passaram mais fáceis pelo fato d'eu ter admitido. Muito pelo contrário; eu não tinha vergonha de admitir isso para mim mesma, nem para os meus amigos. Mas para você eu tinha, apesar de você ser meu amigo. Para você eu tinha, pois eu não queria ser só amiga. Tinha medo.  Tive muito medo. Meses se passaram e ninguém mais suportava me ver assim, angustiada. Eu já não aguentava.
Lembro do dia em que te contei. Lembro exatamente da minha reação ao ler a sua resposta. O monitor do computador pareceu brilhar mais. Tive vontade de sair correndo pela casa, gritando e cantando, quão era a minha felicidade pela minha angústia ter acabado. Pena que esse sentimento não durou por muito mais tempo.
Agora o que me resta é a saudade, e não há angústia maior do que ter a certeza do quanto seria maravilhoso estar ao seu lado e não poder estar. Não há angústia maior do que saber que tudo estaria certo com você, mas que você não está aqui, nem eu aí.
Hoje é Dia dos Namorados, e nós não namoramos. Não há como, há? Não lhe desejei o clichê, nem lhe dei um beijo; não lhe dei presentes, nem olhei em seus olhos. Não fiz nada além de pensar no quanto seria bom fazer essas coisas, por mais idiotas que elas pareçam ser. Numa hora dessas (01h06) eu me pergunto no porquê dessas coisas acontecerem. Não que eu não fique feliz da gente ter se conhecido e ter dado certo. Só não fico feliz com a distância que estraga todas as coisas que seriam perfeitas mesmo com defeitos.

Tempestade Caótica (O quê?)

Eu testei alguns começos para este texto. Testei algumas frases sem-sentido, alguns pensamentos filosóficos, algumas falas de personagens que eram eu, mas que no fim, nada diziam sobre mim. Eu procurei por respostas para que questões sinceras e simples pudessem ser feitas, e procurei no dicionário por significados de palavras que sequer existiam.
Permaneci na busca por canções que musicista algum compôs, e olhei atentamente toda a superfície do meu coração tentando encontrar alguns rascunhos de uma felicidade antiga que ainda não fora terminada.
Vasculhei os meus arquivos, os meus sentimentos inimigos e tentei com toda a minha rara boa-vontade acabar de vez com essa história de navegar por mares errantes.
Eu deixei que o meu barco vagasse por conta própria e fui atrás desses baús velhos que haviam dentro de mim. Encontrei o vazio juntamente com o seu eco.
Meu pequeno barco que carinhosamente apelidei de navio, bateu descontrolado contra pedras inconvenientes naquele agitado mar de costume. Havia uma tempestade ali. O vazio gritante de meus baús internos fez com que aquele mar salgado de lágrimas se agitasse.
Virei. Caí ao fundo e quase me afoguei. Tentei fugir, e ao tentar respirar, eu só engolia mais água. Em cada vez que tentei escapar, a situação apenas piorava.
Voltei para a superfície, e numa terra pseudo-firme, eu tentei secar os meus pertences. Sequei meus pensamentos, minhas frases, meus objetos. Sequei minhas carências, minhas saudades, minhas dores. Estes já estavam se recuperando, mas voltar a ser o que eram antes já não era possível. A água fora cruel.
Eu também testei alguns finais para este texto. Testei alguns enredos, que se perderam nos meios. É possível notar que meus testes são apenas puro clichê, assim como essas benditas palavras minhas, que com tanto afinco são guardadas aqui dentro desde livro com o nome de "Minha Vida". Mas no final, eu percebo que minhas histórias nunca se passam do começo, e que mesmo o fim acaba não terminando.

Tá tarde

Cá estou eu. São... Que horas são? Não posso confiar muito no relógio do meu computador, pois acabei de me lembrar que ele criou o detestável hábito de mudar as configurações sem a minha autorização; não tenho relógio de pulso e meu celular está muito longe para que eu o pegue para averiguar que horas são. A hora não importa, realmente; o que importa é que está tarde. Muito tarde. Àquela hora da madrugada em que o céu está tão escuro, que até as estrelas já se escondem em sua escuridão.
Na verdade está tarde em todos os sentidos. Tarde. Venho tomando uns cafés, umas Cocas, ou simplesmente tenho tentado manter meus olhos abertos e bem abertos. Não quero dormir, ou eu realmente não consigo pregar os olhos depois de tudo aquilo. Aquilo o quê? Você se pergunta. Aquilo lá. Aquilo que não aconteceu porque estava muito tarde. A culpada foi e continua sendo eu, por ter esperado, por ter protelado, por ter me acovardado demais. Esperei alguns minutos que se transformaram em horas, que acabaram deixando tudo muito tardio; deixei pro outro dia, e assim se seguiu essa novela das oito. Toda essa história acabou por ficar enrolada demais, demorada demais, parada demais. Parada? Talvez ela estivesse se mexendo, mas não no ritmo ideal pra que toda essa agonia se acabasse. O programa teve esse tremendo atraso, e o que era pra ser novela das oito, agora acabou por ser uma novela... Próxima.
É tarde. Eu desliguei a tevê agora porque o barulho tava alto demais pra esse horário noturno que tem o meu estilo de vida. Sou vampira não, nem acredito nessas coisas pra dizer a verdade. Claro que já li um bocado de livros contendo esse assunto, mas quem não toma a ficção como uma tecla de escape da vida real? Porque a gente sabe, nesse nosso dia-a-dia já tem tanta merda, que uma leitura sobre aquilo que a gente mesmo vive, é um porre daqueles bem tomados. Só sei que ta tarde pra mim e minha mãe, meu pai, todo mundo já veio me chamar. Uma hora me mandam sair da cama, outra hora me mandam ir dormir; não consigo entender – e vamos se francos, quem consegue? Você?
Me atrapalharam, sempre me atrapalham. Pelo menos é isso que tenho tentado me convencer, em todos esses lamentos silenciosos que são os meus textos. Eu sei que ninguém ta me atrapalhando, e que ninguém teve a intenção de me atrapalhar; se alguém teve, eu que deveria ter sido decente ao me concentrar. Mas porra, ta tarde! E quem consegue pensar direito quando a merda do relógio da cozinha faz tanto barulho que você não sabe se você digitando ou aqueles ponteiros irritantes estão competindo pra ver quem é mais barulhento? Eu não esqueci que ta tarde, eu to vendo. Não esfrega na minha cara, tempo, vida, casa, eu?!, eu.
Tem uma música suave de fundo aqui nesse meu desespero, tentando me acalmar, mas a cada acorde, a cada nota, a cada palavra, a cada entonação da voz, eu vejo que o tempo ta sendo contado. Eu to paranóica? Um pouco. É que sei que ta tarde, e enquanto eu não parar de me dizer isso, e resolver fazer alguma coisa que não esteja fora do prazo, eu não vou sossegar. Porque eu to aqui sentada nessa cadeira azul-marinho que é super confortável, bem em frente ao meu computador, enrolada nuns cobertores quentes e felpudos que geralmente ficam na minha cama, enquanto eu poderia estar fazendo algo de proveitoso, algo que eu realmente preciso fazer. Mas não faço, e depois me lamento internamente por não ter feito o que deveria ser feito na hora certa; daí me lamento mais um pouquinho, por não poder fazer mais, por estar tarde. Exatamente como fiz nesse texto todo.
Sei que cê ta cansando de ler toda essa babozeira de que ta tarde e coisa e tal, e pra te falar a verdade, eu mesma to cansada de digitar, porque meus dedos estão tão gelados, que tenho a impressão de que nem os sinto mais; dormentes, como eu. E eu vou parar, mais uma vez eu vou parar porque sou covarde e sempre coloco a desculpa de que o tempo acabou. Como agora.
Tá tarde.

Penélope (Mar)

Estava caminhando pela praia, que agora não tinha turista algum, e nem muitos moradores. Eu só havia encontrado alguns loucos, que assim como eu, gostavam ou amavam os dias nublados.
A praia estava cinzenta, o mar estava silencioso e o céu encoberto de nuvens pesadas estava ladeado por gaivotas que geralmente cantavam desafinadamente feito loucas, mas nessa manhã, estavam mudas. Ai de quem resolvesse mudar aquele quadro. Não se mexe numa obra onde há perfeição, e não havia nada mais perfeito do que o puro silêncio. Silêncio.
Provavelmente, se você estivesse olhando fora da minha cabeça, você ouviria muitos zumbidos de motores de carros, gritos e risadas de pessoas descontraídas e um mar turbulento chocando contra pedras mal colocadas. Mas você está lendo o meu pensamento, e ele está desligado de todo esse tormento. Tormenta.
Continuei em minha caminha distraída, pensando no sol que estava escondido, na chuva que logo viria, no cinza que me cobria. Pensando no choro de quem me amava, na música que ninguém cantava, no perfume que flor alguma exalava. Pensava.
Encontrei-o como de praxe, naquele mesmo lugar aleatório, que mesmo sendo alheio à tudo, era o nosso ponto de encontro. Não marcávamos horário, não marcávamos dia. Somente estávamos, encontrávamos, amávamos.
- Esperei por você nessa madrugada. Ah, a minha cama ficou tão vazia e fria. – Acusei-o num tom que mais parecia lamentação do que uma genuína acusação. Eu queria brigar. Queria batê-lo, odiá-lo, xingá-lo. Queria chamá-lo de mil palavrões. Mas não podia.
Eu só podia amá-lo.
- Eu tentei ir, mas você viu a tempestade? Eu não chegaria vivo se eu arriscasse. – Falou com um sorriso terno nos lábios, provavelmente adivinhando qual era o rumo de meus pensamentos. O desgraçado do meu amado conseguia me entender. Ele entendia, ah, se fazia.
- Poderia ter me avisado. – Falei somente essas palavras e tratei de virar de costas, tentando esconder-lhe a minha saudade.
Alguns braços – apenas os dele – enlaçaram em minha cintura, e um hálito doce que misturava com o cheiro de um café recente, brincava em meu pescoço, torturando-me de maneira colossal.
- Perdoa-me se fiz com que você se atordoasse, minha Penélope. Meus pensamentos só puderam pousar em sua imagem. – Sussurrou contra o meu ouvido, fazendo com que meus pêlos se arrepiassem. Fazendo com que meu coração saltasse, e se contivesse.
- Perdôo. – Deixei que as palavras flutuassem pelo ar, ecoando o que eu sentia.
Eu tentei escapar. Olhei para o horizonte, tentei encontrar conforto no mar. Agora ele parecia muito mais aterrorizante; agora ele parecia muito mais agitado. O mar parecia comigo, e dessa vez, você está percebendo isso de modo genuíno, ao me ler. Tenho pena de meus leitores.
- Ah... Pequena... – Sussurrou mais uma vez logo após de mandar-me um suspiro daqueles que fazem as damas tremerem as pernas. As minhas estavam intactas – ou talvez sonhassem em estar.
Meus olhos já estavam sendo fitados por aqueles outros, que pareciam ser nada, mas que continham tudo; continham o mundo! O meu amor.
- Sabes que eu Te Am... – Tentou me dizer. Cortei-lhe com um dedo atrevido em seus lábios. Aquelas palavras não eram verdades, e eu não queria mais ouvir mentiras.
- Não diga nada que não tenha certeza. – Falei-lhe, tentando fugir daquelas garras benéficas. Eu queria levar meu coração embora. Sair correndo para nunca mais vê-lo. Sair correndo para nunca mais ser atingida por ele, por aquele perfume encantador.
- Mas eu te amo. – Disse, mesmo depois d’eu ter tentado cortá-lo mais uma vez. Sorri por dentro, sentindo um calorzinho com o nome de “esperança”. Ele se atrevera ao me desafiar. Ele disse, mesmo eu falando pra não contar mentiras. – Eu te amo, garota. Amo, mas ainda temo. Você deveria deixar que eu me acostumasse à sua correnteza, mas você foge! Eu quero saber nadar nesse mar... No seu mar. – Falou-me num tom de confidências, olhando-me nos olhos para que eu visse que não havia vestígio de mentira ali. Foi aí que eu entendi.
Tentei dizer-lhe que também o amava, e que sonhava com os seus braços em torno do meu corpo praticamente todas as noites. Tentei dizer-lhe que desejava por aquele momento e por muitos outros, e que corria para a praia, para tentar esquecer do que já não tinha cura. Aquele amor. Aquela dor. Tentei dizê-lo.
Meus lábios foram tomados por outros lábios, que de tão famintos, pareciam queimar-me a cada toque. Línguas, bocas, abraços. Tudo era bonito, ritmado. Tudo era paixão, eram laços. Tudo era eu e meu Thiago.
O mar cantava ao fundo, junto das gaivotas, e eu tentando fotografar com os meus sentidos aquele momento para que esse se eternizasse, tentei descrever aquele instante em outras duzentas mil palavras, que estão confinadas nessa cabeça que você lê quando bem entende. Eu ainda lembro daquela praia, e daquele aroma que essa exalava. Lembro do som extinto que um canto silencioso tocava. Lembro de uns braços fortes que me protegiam de meus próprios medos. Lembro de um sabor vindo de uma boca macia que acariciava a minha com desespero. O meu Thiago não deixa que eu esqueça.